✒ Palavras Soltas

✒ a dor é de quem fica, não de quem vai.

19 de Fevereiro, 2020

As pessoas continuam a dizer que ao menos não estás a sofrer. É claro que não. Não sentes nada porque partiste. Sabes quem está a sofrer? Quem gostava de ti. A dor é de quem fica, não de quem vai. E eu sei o quão egoísta isto soa mas, desculpa, hoje tenho permissão para o ser. Que se foda se pensam que estou a ser má. Tu não merecias partir e toda gente sabe disso, por várias razões ou por nenhuma razão. Que grande Deus deve ser para levar quem faz falta e manter quem faz mal.

Estou farta de tentar ser o mais politicamente possível e ignorar a raiva que sinto. Não consigo pensar em ti sem começar a chorar, é por isso que evito falar de ti com os outros ou comigo mesma. Não aguento sentir este aperto no coração enquanto as lágrimas caem-me pelo rosto sem parar. Dá-me uma vontade enorme de mandar o mundo para o inferno e fechar-me no quarto com as luzes apagadas. Sinto saudades tuas.

A raiva aumenta porque não pensei que fosses tão cedo. Há uma tristeza que cresce dentro de mim cada vez que fico feliz ou acontece alguma coisa boa porque não estás cá para partilhar contigo. Quem sou eu para estar feliz? Sinto culpa por ficar feliz porque não estás aqui para estar feliz comigo. Não tenho o direito de ficar feliz pelas minhas conquistas quando não as posso dividir contigo.

Desculpa se não fiz mais por ti do que aquilo que devia. Quão hipócrita fui por gritar ao mundo para amarem os outros enquanto estão cá quando eu não tive o tempo suficiente contigo. Amor não falta por ti, acredita. Espero que saibas que tens um lugar especial no meu coração. Tens e terás sempre.

Às vezes falo de ti no presente ainda. Não consigo evitar. Às vezes esqueço-me que já não posso falar contigo. Enquanto escrevo isto não consigo ver direito porque as lágrimas estão atrapalhar a minha visão. Já te tentei escrever muitas vezes e acaba sempre com o mesmo: eu a chorar por estares longe.

Dizem que uma pessoa só morre realmente quando o último indivíduo que se lembra da pessoa morre também. Espero conseguir falar de ti aos meus filhos e contar-lhes o quão incrível tu foste. Eles iriam gostar de te conhecer da mesma maneira que eu conheço. Espero que eles conheçam alguém como tu para fazer a vida deles um pouquinho melhor.

Espero que estejas bem, okay? Só quero um sinal de que estás bem. Onde quer que estejas, quero que estejas bem. Nunca te desejei mal, eu juro. Eu sei que me poupaste muitas vezes da preocupação que causaria a tua situação e só agora o percebo. Às vezes vejo-te, na cara das outras pessoas. É demasiado real e o meu cérebro esquece-se de que tu não estás cá e acredito mesmo que és tu. Por segundos, fica tudo bem. Os segundos passam depressa e tu desapareces. Não te vou ver mais, tenho de me mentalizar disso.

Não estás a sofrer, dizem. Eu sei que não estás. Eu é que estou. E eu sei que tu não querias isto, mas desculpa, não consigo evitar. As memórias de ti preenchem-me a mente e navego entre elas e o quão boas são! Diz-me se estás bem. Dá-me um sinal. Tens mais uma estrelinha a olhar por ti. Já são quatro e só sinto que estou a perder pedaços de mim.

Foi então que percebi que não tenho medo que a morte me leve porque sei que fiz o que podia e o que queria. Tenho medo que a morte leve quem eu gosto porque quero sempre mais tempo com eles. A culpa aparece porque eu não queria que fosses. A culpa está presente porque eu acho que não fiz nada, mas sei que fiz o que conseguia. Não havia muito a fazer, eu sei. Dizem-me que não podia fazer nada e eu sei, mas a culpa aparece na mesma. Aparece porque eu só quero poder brincar com o tempo e congelá-lo, rebobiná-lo, fazer o que quiser com as memórias que restam de ti. E não o consigo fazer. Desculpa.

Um dia vamo-nos encontrar de novo, eu sei que sim. Eu queria que esse dia fosse próximo, mas preciso que ainda demore algum tempo, okay? Eu sei que também queres que demore tempo. Há muita coisa que preciso de fazer antes de te ver de novo, okay? E em todos os meus projetos e conquistas, eu sei que vais estar lá a olhar por mim. Sempre foste o número um da fila – desta vez, um pouco mais invisível, mas eu sei que te vou sentir lá. Obrigada. E desculpa. Eu sei que me desculpas, eu sei. Mas desculpa de novo.

Obrigada e até já.

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