✒ Palavras Soltas

✿ a primeira vez.

6 de Maio, 2017



Vivemos numa sociedade onde a rapidez se tornou um paradoxo no
quotidiado. Temos todas a informação que queremos na ponta dos nossos dedos,
libertando a nossa curiosidade sobre qualquer tópico possível e imaginável.
Torna-se difícil haver um estado de calma para possibilitar o processamento da
informação que recebemos.

As viagens cada vez menos demorosas, as telecomunicações que nos ajudam a
enviar mensagens para o outro lado do mundo e são recebidas em tempo real, a
forma como as ideias e os valores são espalhados pelos sete biliões de pessoas
– tudo isto cria uma imagem na nossa cabeça em que tudo tem de ser com rapidez.
A rapidez de querer perder a virgindade, a rapidez de ter certa aparência, a
rapidez de amar, a rapidez de crescer, a rapidez de saber coisas, rapidez de
ser-se adulto.
A ânsia de percorrer os caminhos das primeiras vezes torna-se uma
prioridade como se fosse uma maneira de mostrar quem é o melhor.
Nunca fui o tipo de pessoa que cedia a pressão por parte dos amigos, mas
sei de casos em que levou a erros que não são agradáveis de reviver. Sempre
soube o que era benefício ou não para mim, tanto que até à universidade sempre
segui o plano que ditei para mim mesma.
As minhas primeiras vezes foram o que muitos consideram tarde mas, para
mim, foram na altura acertada e mais que acertada – perfeita, eu diria.
A primeira vez que fumei foi no décimo primeiro ano. Tenho a perfeita noção
de que o tabaco faz mal, no entanto, a curiosidade de saber o porquê de as
pessoas adorarem aquela substância chamou por mim. Ora, eu sei que o que vicia
é a nicotina que está lá presente, mas para se ficar viciado ainda demora uns
dias, semanas. Devo dizer que odiei o sabor e tudo em si. O fumo dá-me dores de
cabeça e o cheiro que entranha no meu cabelo e nas minhas roupas irrita-me. Não
consigo evitar senão rir com isto, mas às vezes dá mesmo vontade de bater nas
pessoas que fumam perto de mim. Peço desculpa!
A primeira vez que bebi café estava no secundário, mas comecei a beber mais
continuamente na universidade. Isto porque, obviamente, eu dormia pouco e tinha
de estar atenta às aulas e enquanto estudava. Eu achava que fazia efeito, até
que percebi que não. Na verdade, dependia das vezes. Uns dias dava ainda mais
sono, outros deixava-me elétrica para caramba! Agora deixei de tomar pois para
dar sono ou ficar elétrica já o faço sem ajudas.
A primeira vez que bebi álcool foi, novamente, na universidade. Sempre tive
curiosidade em experimentar só que não sabia bem com o que começar.
Tequila. 
(NOTA: Não estou a incentivar a bebida.) A ardência pela garganta abaixo é
algo um tanto aditiva porque, além de saber bem, tornou-me mais extrovertida –
o normal do álcool. Não, nunca fiquei bêbeda e não desejo ficar. O meu desejo
por controlo deixa de lado a vontade de perder os meus sentidos e não saber o
que faço.
A primeira vez que beijei alguém no no quinto ano. Vou só dizer que foi…
embaraçoso. Nem vou partilhar isso.
A primeira vez que namorei foi no sexto ano. Eu não sabia bem o que era o
amor, mas sabia que sentia mais do que atração física pelo rapaz. Foi algo
muito instável e durou um ano, mas foi a primeira vez que percebi que se calhar
eu não era má de todo e havia alguém que gostava de mim.
A primeira vez que amei alguém foi no décimo segundo ano. Na minha cabeça,
o amor era suposto doer porque era como uma doença que nos infetava o corpo
todo. Doía amar aquela pessoa porque significava que gostava dela. Rebaixei-me
e deixei-me levar pelas chantagens emocionais porque amei mais a ele do que a
mim mesma. Perdi-me para o poder amar invés de me amar para não me
perder. 
A primeira vez que tive o coração partido foi exatamente com esse rapaz.
Aquele que eu pensava que me amava mesmo amando mais raparigas. Fazia-me sentir
insuficiente, mas não me permitia pensar que era por causa dele, não. A culpa
era minha por não ser suficientemente boa para ele. Eu é que devia ser mais e
melhor para que ele olhasse só para mim. Enganei-me. Não é o amor que doí, é a
pessoa que diz amar sem saber. 
A primeira vez que entendi o amor não é suposto doer foi no ano passado.
Estou a descobrir aos poucos o que é realmente o amor porque não é uma pessoa
dar mais do que a outra. Amar é igual dedicação e atenção por ambas as partes;
É cuidar, é entender, é respeitar e valorizar o outro. 

A primeira vez que fiz sexo foi um pouco tarde, dizia toda gente. A verdade é que, para o que é considerado “normal”, foi tarde. Eu acho que foi o momento certo. Não foi apressado, não foi uma experiência má, foi com alguém que confiava e que amava.
Vive-se numa era em que tentasse precipitar tudo não vivendo realmente os
momentos, não se pensando bem no que se está a fazer. É necessário desacelerar
as nossas vidas e os nossos pensamentos para encontrar um certo gozo no
presente. Não tenhas urgência para experimentar tudo de uma só vez só
porque pensas que estás atrás dos outros. Cada um tem o seu ritmo de
crescimento. E está tudo bem em não fazer as coisas ao mesmo tempo do que toda
gente. Leva o teu tempo.
  • Reply
    Lúcia Costa
    6 de Maio, 2017 at 12:37 PM

    gostei imenso! foi até reconfortante para mim, dado que eu sou uma daquelas pessoas que supostamente nunca fez algumas coisas que já devia ter feito segundo alguns…

    • Reply
      Marta Morgado
      6 de Maio, 2017 at 12:42 PM

      Obrigada por leres em primeiro lugar.
      Em segundo lugar, não faças porque os outros também o fazem. Evolui ao teu ritmo porque só tu podes decidir quando é o tempo ideal ou não!
      Novamente, obrigada por leres, beijinhos!

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